“EU CONFIO MAIS NO QUE EU OBSERVO”: PENSAMENTOS DA AGRICULTURA FAMILIAR PARA AS DIN MICAS CLIMÁTICAS
José Anchieta de Araújo (anchietaaraujo@unifesspa.edu.br)
Hiran Moura Possas2 (hiranpossas@unifesspa.edu.br)
INTRODUÇÃO
Este escrito desdobra-se da pesquisa de mestrado intitulada “Variabilidade pluviométrica e a percepção de agricultores do município de Marabá” desenvolvida no Programa de Pós Graduação em Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia (PDTSA). Objetiva-se verificar qual a relação existente entre as percepções e memórias de agricultores familiares quanto às chuvas no município de Marabá nos últimos 36 anos, com o resultado da análise da variabilidade pluviométrica da região que será obtida através do cálculo do Índice de Anomalia de Chuvas (IAC). A metodologia utilizada para identificação da percepção ambiental/climática dos agricultores é a História Oral. Foram realizadas entrevistas com agricultores dos Projetos de Assentamentos Alegria, Grande Vitória e Escada Alta, sendo que aqui será destacada uma narrativa deste último.
A dinâmica climática e as questões do tempo fazem parte da realidade do homem. Em diferentes lugares do mundo, homens e mulheres, a partir da observação e de diferentes sinais da natureza, preparam suas terras para o plantio em momentos certos e calculados. Sobre isso os autores Fluentes, Bastos e Santos (2015, p. 350) comentam:
Dia após dia, mês após mês, ano após ano, um grande tesouro de experiências e interpretações foi acumulado em todo o mundo, nos cinco continentes, pelas mais diversas civilizações, sobre a natureza e seu funcionamento [...] Antes da aparição e consolidação da Ciência, com seus métodos e instrumentos, só restava procurar explicações na ação de forças desconhecidas, mas, na realidade, não se pode esquecer que a observação repetida dos fenômenos [...] Não era um conhecimento construído no vazio, mas apoiado em experiência de longa data.
O conhecimento fundamentado nas experiências e memórias, era muito valorizado pelos gregos. Aristóteles, por exemplo, discutindo a relação do homem com o saber atrelado a experiência, memória e conhecimento disse: “É da memória que deriva aos homens a experiência: pois as recordações repetidas da mesma coisa produzem o efeito duma única experiência, e a experiência quase que se parece com ciência e arte.” (Aristóteles, 1984, p. 11).
Dentro desse contexto de valorização das memórias e de como elas não apenas ajudam a reconstruir o que aconteceu e seu processo de significação, mas também, permitem uma análise do presente em vista do que se foi que pesquisas utilizando a História Oral (HO) ganham força e destaque no meio acadêmico (ALBERTI, 1996).
MATERIAL E MÉTODOS
De acordo com Thompson (2000, p. 9) a HO corresponde “a interpretação da história e das mutáveis sociedades e culturas através da escuta das pessoas e do registro de suas lembranças e experiências.”. O autor afirma ainda que se trata de um método essencialmente interdisciplinar, pois diferentes pesquisadores podem utilizá-lo, além de unir tanto a evidência necessária em pesquisas quantitativas como qualitativas (THOMPSON, 2000)
Por este motivo, a HO Temática – visto que existe um assunto que irá nortear a entrevista - apresentou-se como possibilidade metodológica para descrever a partir do diálogo e da reconstrução da memória, a percepção sobre as mudanças climáticas, em especial, no regime pluviométrico nos últimos 30 anos do município de Marabá. Para tanto, foi entrevistado um agricultor que vive no Projeto de Assentamento Escada Alta, Marabá – PA.
É importante frisar, que assim como afirma Alves (2016, p. 4) “o êxito da entrevista começa antes mesmo dela acontecer.” e que o entrevistado é um “sujeito que possui um papel ativo na pesquisa”. Esta importância do sujeito foi deixada clara antes de iniciar a conversa, no contato prévio que havia sido estabelecido com ele. Além disso, expliquei sobre a relevância da permissão de uso das falas e das imagens através da assinatura do Termo de Livre Consentimento. A entrevista durou 50 minutos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 A realização da entrevista: “ninguém sabe se a água vai cair”.
A entrevista ocorreu na manhã do dia 22 de outubro de 2019. Havia chovido bastante na noite anterior. Dentro desse cenário, foi motivante dialogar sobre a importância das precipitações na região, a frequência com a qual elas acontecem atualmente e há 30 anos, como elas afetam diretamente a vida dos agricultores e as maneiras que eles têm para descrever a chegada das chuvas.
Sentamo-nos então, eu e o Sr. Alan, agricultor de 46 anos, natural de Araguatins – TO, mas que vive em Marabá há 43 anos. Como ele mesmo diz “vim pequenininho e desde os 12 anos de idade já comecei a trabalhar como agricultor. Sou agricultor desde que me entendo por gente”.
Iniciamos então, tomando um café que dona Lúcia nos serviu, conversando sobre amenidades. Posteriormente, começamos um diálogo sobre as chuvas da região: se elas estão aumentando ou diminuindo e como isso afetava a vida dele. Então ele disse:
Eu tenho percebido que as chuvas aqui na região mudaram bastante...antes chovia mais e agora mudou. Antes em setembro e outubro a gente já podia plantar...agora a chuva não chega no tempo certo! O tempo dela tá mudando. Era seguro plantar milho e arroz em outubro, mas hoje, vixi maria! Não pode não, porque ninguém sabe se a água vai cair. Novembro e dezembro estão mais na confiança, mas há um tempo atrás outubro também era certo. Julho e agosto sempre foi quente e seco. Isso não mudou não. E nós depende da chuva pra tudo, porque não tem irrigação né? Nem o poço! (Alan, entrevista concedida no dia 22/10/2019).
Durante a conversa, percebi que o Sr. Alan se mostrava preocupado, afinal, como ele mesmo disse, desde que o “verão” começou, a chuva da noite anterior havia sido a terceira. Dentro desse contexto variabilidade dos meses da chuva de mudanças nos meses de chegada das chuvas, Seu Alan conta suas estratégias para manter a produtividade:
A gente vai se adaptando como dá? Aqui nós começa a plantar agora é em outubro mesmo. Planta a banana, a macaxeira. A banana pode até ser um pouco antes porque é bom de plantar ela é na terra quente mesmo. O milho eu tenho que plantar só em lugar alto porque ele não precisa de muita água e nem gosta de muita chuva. Tem que saber ter esses cuidados também. Com esses tempos assim eu não planto mais é arroz porque não dá mais. (Alan, entrevista concedida no dia 22/10/2019).
Após esse momento, seu Alan contou um pouco sobre a necessidade de variar as produções agrícolas, já prevendo que as chuvas não estão mais certas, significando ao pesquisador que a variabilidade pluviométrica do município de Marabá dos últimos 36 anos que vem apontando para uma anomalia negativa, ou seja uma redução tanto na quantidade do volume total das águas pluviais quanto a um deslocamento da época chuvosa, estão sendo percebidos pelo agricultor.
Essa diminuição na frequência da precipitação, tornou necessário ao narrador definir sua plantação definindo quem “se dá bem com muita água e quem não se dá bem”, falando sobre as diferentes formas de adaptações das plantas à disponibilidade de água e a definição de estratégias de plantio: “o milho eu tenho que plantar só em lugar alto, porque ele não precisa de muita água e nem gosta de muita chuva…”.
Em dado momento, perguntei ao Sr. Alan quais as fontes de informação que ele utiliza para saber da previsão do tempo e se ele ainda utiliza meios, como por exemplo a observação dos sinais da natureza. Então ele disse:
Ah, nós assiste a televisão né? Aquela mulher que fala das chuvas...mas as vezes ela erra pra nossa região, aí eu confio mais no que eu observo. Quer ver? Se os peixes estiverem brincando no açude pode ter certeza que vai chover, mesmo que eles digam que não. Aquele calor forte, o mormaço, né? Também mostra que vem chuva. Do mormaço tem que saber que se for muito mormaço é pouca chuva, mas se for pouco mormaço a chuva vem mais forte...essas coisas que a gente aprendia com os pais...os tios...os avôs... (Alan, entrevista concedida no dia 22/10/2019).
Não é que ele não confie no conhecimento científico, mas desconfia da forma como é divulgada….
3.2 As entrevistas: “Eu vou te dizer aquilo que eu sei…”
Costa (2014, p. 51) diz que “Interpretar é: atribuir sentidos aos fatos narrados; é relacioná-los a uma teoria; é estabelecer uma relação dialógica entre o corpus e o pesquisador – relação sempre mediada pela cultura”.
Ao apontar a questão cultural, fica nítido que este pesquisador em algum momento aparece também e deixa suas marcas no processo de interpretação, ou seja, o “Eu” e a cultura do pesquisador afloram no momento da escrita. Sobre isso, Costa (2014, p.52) falando sobre sua experiência ao entrevistar o Sr. Rufino em sua pesquisa “A luta pela terra no Distrito Federal” diz que para “analisar, selecionei temas que considerei relevantes, ou seja, que passaram pelo crivo da minha experiência de vida e de minha formação profissional e política [...]”
Dessa maneira, julgo importante destacar de qual lugar falo como pesquisadora. Sou geógrafa e mestranda da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará de um programa interdisciplinar em “Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia”. Assim, ao conversar com os agricultores, além da preocupação em pensar na relação do homem com a natureza, principalmente as questões climáticas, dentro do espaço geográfico, busquei também refletir sobre esse homem como sujeito de sua própria história; sobre sua relação de luta para se manter agricultor em uma região tão marcada por conflitos territoriais como é o sudeste paraense.
O PA Escada Alta é fruto do processo de luta pela reforma agrária popular e faz parte dos aproximadamente 77 assentamentos com 7.059 famílias que vivem e contribuem para o abastecimento agropecuário da mesa de muitos brasileiros do sudeste do Pará (INCRA, 2017).
Quanto a percepção pluviométrica do Sr. Alan, sabe-se que cada pessoa possui uma maneira de sentir e perceber o regime climático, já que a percepção do meio ambiente “se refere à forma com que as pessoas vivenciam e se relacionam com o ambiente onde estão inseridas” (NASUTI et al, 2013, p. 385), sendo algo muito pessoal.
Ao conversar com seu Alan, percebi uma clara leitura e percepção a respeito da dinâmica pluviométrica na região onde ele se encontra. O narrador aponta o deslocamento dos meses chuvosos da tríade outubro-novembro-dezembro, para somente novembro e dezembro, indicando, dentro de sua percepção um deslocamento nos meses outrora chuvosos e uma redução na quantidade das chuvas ao longo dos últimos 30 anos.
É importante frisar que a métrica utilizada pelo sr. Alan em relação ao seu trabalho e sua leitura da da natureza são oriundas da conjunção do tempo e do espaço. Ele olha para o seu terreno, para os sinais naturais, para o comportamento das chuvas e a partir daí, estabelece uma nova linha cronológica orientada por sua percepção.
Percebe-se ainda que o agricultor já possui um calendário mental de plantio para cada cultura agrícola e um conhecimento geomorfológico adequada para receber a plantação: ele define, por exemplo, que o milho deve ser cultivado nos locais mais altos para não correr o risco de inundação, uma vez que ele não gosta de muita água. O agricultor aponta também que os meses de maior estiagem (Julho e Agosto), os quais ele chama de “verão”, são os indicados para o plantio da Banana, uma vez que a fruta gosta da “terra quente”.
Nota-se que o processo de plantio ocorre sincronizado a essas dimensões que são acionadas pelo narrador: a disponibilidade de água, o atraso ou não das chuvas, a preferência da fruta ou leguminosa por terra quente ou não, e ainda, o melhor local do terreno para plantar. Assim, com planejamento estratégico, a análise do agricultor, embora empírica, vem permitindo que ele trace meios que mitiguem a ação adversa do tempo e garanta, minimamente, sua colheita e produtividade (FLUENTES, BASTOS E SANTOS, 2015)
Bastante interessante notar também a importância dada pelo Sr. Alan ao conhecimento transmitido de gerações a gerações, uma vez que a imagem “dos peixes brincando no açude” garante a chegada das chuvas, ainda que “a mulher que fala das chuvas” (em referência a jornalista) diga que não. Sobre esse saber transmitido e sua relação com a memória coletiva, Costa e Maciel (2009, p. 61) dizem:
Lembremos, entretanto, que a memória social é mais do que uma ressignificação de histórias já vividas a partir de uma vivência do presente: ela é inerentemente coletiva, uma vez que trata da construção permanente de um espaço e de um tempo coletivo, a partir de um olhar próprio a determinada cultura.
O que os avós e os pais sabem é passado para os netos e filhos. Logo, têm-se uma articulação de memória e conhecimento comunitária. Ademais, o elemento da observação e da experiência dentro da cultura campesina são fundamentais e fazem parte das atividades cotidianas, atingindo o que Coll (2002, p. 35) irá chamar dimensão mítico simbólica e que esta não pode ser ignorada, pois” trata-se de um nível da realidade mais profundo do que aquele que se pode atingir a partir da razão reflexiva, conceitual e lógica”.
Assim, os conhecimentos comunitários da agricultura familiar, fundados na vivência, na experiência e na memória são fundamentais para o entendimento de diferentes formas de saberes. Nessa perspectiva, evoca-se a importância de valorizar cada saber como parte integrante na produção da ciência, evitando a inglória tentativa de categorização e dominação na produção científica e dos sujeitos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A percepção climática corresponde a um campo novo de pesquisa dentro dos estudos ambientais ligados às questões das mudanças e variabilidades do tempo/clima, tendo como principal objetivo apresentar uma abordagem mais “humana” sobre esses eventos. Percebe-se que a metodologia de História Oral se mostrou pertinente para a análise das narrativas do sr. Alan e, pela percepção do agricultor, as chuvas estão diminuindo ao longo dos últimos 30 anos, prejudicando não só a produtividade, mas causando uma reorganização no calendário agrícola tradicional.
A cultura e a experiência acumulada auxiliam os camponeses a realizar prognósticos de chuva, de plantio, de colheita e até mesmo a identificar de forma muito íntima as preferências das plantas quanto aos períodos de cultivo (“Banana gosta de terra quente”). Esses conhecimentos orientados pela natureza auxiliam o agricultor a ações adaptativas a essas modificações e variabilidades climáticas.
REFERÊNCIAS
ALBERTI, Verena. O que documenta a fonte oral? Possibilidades para além da construção do passado. Rio de Janeiro, 1996.
ALVES, Maria Cristina Santos de Oliveira. A importância da história oral como metodologia de pesquisa. Anais eletrônicos da IV Semana de História do Pontal/III Encontro de Ensino de História. 2016
ARISTÓTELES. Metafísica (Livro I). Tradução de Vincenzo Coceo e Joaquim de Carvalho. São Paulo: abril, S. A. Cultural, 1984.
COLL, A. N. Proposta para uma diversidade cultural intercultural na era da globalização. 2ª Ed. São Paulo: Instituto Polis, 2006.
COSTA, Samira Lima da. MACIEL, Tania Maria de Freitas Barros. Os sentidos da comunidade: a memória de bairro e suas construções intergeracionais em estudos de comunidade. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 61, n. 1, 2009. Retirado do World Wide Web http://www.psicologia.ufrj.br/abp/ 60.
COSTA, Cléria Botelho da. A escuta do outro: os dilemas da interpretação. História Oral, v. 17, n. 2, p. 47- 67. Jul/dez. 2014.
FLUENTES, Manuel Cabalar. BASTOS, Selma Barbosa. SANTOS, Naíara Mota dos. Estudo do conhecimento popular na região semiárida do estado da Bahia. IN: Revista de ciências humanas, Viçosa, v. 15, n. 2, p. 349 – 365. Jul/dez 2015.
INCRA – INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA. Disponível em: www.incra.gov.br acesso em: 07 nov 2019
NASUTI, S. et al. Conhecimento Tradicional e Previsões Meteorológicas: Agricultores Familiares e As “Experiências de Inverno” no Semiárido Potiguar. Rev. Econ. NE, Fortaleza, v. 44, n. especial, p. 383-402, jun. 2013.
THOMPSON, Paul História oral e contemporaneidade. Entrevista na UFMG, Minas Gerais, Belo Horizonte. 2000.
Parabéns Ana Lenira, sua pesquisa possui um tema muito interessante e já me parece estar bastante avançada. Com base no seu objetivo de verificar a relação existente entre as percepções e memórias de agricultores familiares quanto às chuvas no município de Marabá, gostaria de saber por que foi selecionado o recorte, nos últimos 36 anos?
ResponderExcluirAlan Martins
Oi, Alan! Muito obrigada pelo olhar generoso com o texto! Alan, como estou trabalhando com duas metodologias bem distintas para alcançar respostas distintas, mas que ampliam a compreensão do mesmo fenômeno, os parâmetros são diferentes. O recorte de 36 anos foi definido a partir do que preconiza a Organização Mundial de Meteorologia (OMM) que para falar em mudança climática precisamos trabalhar com um série acima de 30 anos. Embora o foco da pesquisa não seja a mudança climática e sim a variabilidade climática, ainda assim, para que sua análise seja mais próxima do "ideal", decidimos trabalhar com uma série histórica acima dos 30 anos para poder indicar algo mais concreto. Assim, as entrevistas buscam saber com os narradores quais suas percepções dentro desse recorte temporal, que também é o recorte da série histórica analisada. Espero ter me feito entender. Qualquer coisa, estou a disposição.
ExcluirPerfeito. Obrigado!!
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